2017-07-17

O esquerdista acidental

 Este meu texto foi publicado inicialmente em 14/07/2017 neste post do blog "Delito de Opinião"

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O esquerdista acidental

Na vida das sociedades existem duas tendências antagónicas, para a mudança e para preservar o que se alcançou.

Poderíamos dizer que a primeira é progressista e a segunda conservadora. Mas tratam-se de classificações apressadas porque por vezes as mudanças são feitas para regressar a situações anteriores enquanto o progresso se faz encontrando soluções inovadoras.

Existe outro par de tendências antagónicas que corresponde melhor à distinção entre esquerda e direita, enquanto a esquerda sublinha a igualdade essencial de todos os seres humanos a direita sublinha as diferenças entre seres humanos, que também são essenciais à humanidade, somos todos iguais mas também todos diferentes.

A origem da classificação esquerda/direita vem da revolução francesa em que os deputados do lado esquerdo da assembleia davam prioridade à igualdade enquanto os do lado direito davam prioridade às diferenças vincadas entre as classes sociais que existiam no anterior regime.

Como a distribuição da riqueza era então muito desigual em relação à contribuição de cada um, a esquerda foi conotada em toda a parte com o desejo de mudança enquanto a direita com a manutenção do statu quo.

Mas quando após muitos anos as mudanças introduzidas pela esquerda começaram a ser consideradas excessivas nalguns países, observou-se uma maior apetência pela mudança pela parte da direita enquanto a esquerda se batia pela manutenção das regras entretanto estabelecidas.

Talvez tenha sido a revolução industrial ocorrida na Europa que criou condições para uma partilha da riqueza muito mais equitativa do que a que existira na Idade Média. Em Portugal a revolução industrial foi muito tímida, devido à nossa situação periférica, à catástrofe pombalina da educação (de repente 20000 alunos do “secundário” ficaram sem professores devido à expulsão dos Jesuítas), às lutas entre absolutistas e liberais no século XIX. Na primeira metade do século XX tão pouco houve grandes progressos em Portugal, tendo chegado a 1950, metade do século XX, com uma pobreza confrangedora e uma taxa de analfabetismo de 42% (fonte: António Candeias et al. (2007): Alfabetização e Escola em Portugal nos Séculos XIX e XX. Os Censos e as Estatísticas, mostrada na tabela a seguir), um valor único e inacreditável na Europa a que alegadamente pertencíamos!

Ano    Analfabetismo Variação
1900            73%              -----
1911            69%              -4%
1920            65%              -4%
1930            60%              -5%
1940            52%              -8%
1950            42%            -10%
1960            33%              -9%
1970            26%              -7%
1981            21%              -5%
1991            11%            -10%
2001              9%              -2%

Devido a esta herança de falta de formação que temos tido dificuldade em encontrar profissionais competentes quer na prestação de serviços quer na manutenção de máquinas, sendo preferida a solução de deitar fora e comprar novo, muitas vezes representando um desperdício de capital.

Mesmo agora sofremos deste handicap, quer na manutenção quer nas despesas de funcionamento corrente, como por exemplo no sistema de videovigilância dos paióis de Tancos que estava há dois anos avariado antes do roubo de há dias, no SIRESP que tem má performance nas situações de crise em que teria maior utilidade, na falta de verba para manutenção e funcionamento dos aparelhos de ar condicionado das escolas reabilitadas no programa da Parque Escolar, etc.

Claro que o esforço na formação deu os seus frutos, a qualidade e consistência de muitos serviços melhoraram imenso nestes últimos 40 anos, como por exemplo no serviço nacional de saúde, no ensino, no fornecimento da electricidade, da água, do gás, dos telefones do acesso à internet, no saneamento, no tratamento do lixo e em tantos outros sectores que costumam ser noticiados apenas quando ocorrem grandes problemas.

Mas partindo tão atrasado o país continua na cauda da Europa em muitos indicadores e uma pessoa com tendências conservadoras como eu, que aprecia ver as coisas a funcionar consistentemente bem, não se pode dar por satisfeita apenas com o que se alcançou, vendo-se forçada a apoiar mudanças para uma distribuição mais equitativa da riqueza, que ainda está mais desigual do que a média da União Europeia, sendo a razão principal do nosso atraso.

Ou numa frase: para ser conservador era preciso que o país estivesse muito melhor.

É o que me torna num esquerdista acidental.

jj.amarante
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2017-07-13

Captador de Sonhos




Reparei pela primeira vez no objecto da figura ao lado numa banca de rua numa noite de Setembro de 2014 na Praia da Rocha.

Fiquei intrigado com o objecto mas por qualquer motivo optei por não perguntar do que se tratava, tirei uma foto com o telemóvel e mais tarde fui procurar informação à internet via "Google Images".

Embora já usasse o Google para identificar imagens de quadros e de edifícios julgo ter sido a primeira vez que o usei para identificar objectos.

Li que se tratava de um "Dreamcatcher" que agora achei que se poderia traduzir por "Captador de Sonhos".

É um dispositivo inventado numa tribo de índios da América do Norte e tem como objectivo proteger as crianças de eventuais maus sonhos.

Os sonhos bons sabem como passar pelo dispositivo que apenas impede a passagem dos pesadelos, que ficam presos na teia de aranha desfazendo-se ao nascer do dia.

O dispositivo protector é colocado sobre a cama da criança e as penas servem para mostrar a presença de movimentos do ar, como mobiles.

É curioso como estes objectos perduram nesta época tecnológica, quero crer que as pessoas os usam apenas pelo efeito decorativo, mas não tenho a certeza que esse cepticismo seja universal.

Entretanto vejo-os agora com cada vez maior frequência.

E gosto da forma estilizada da teia no círculo maior.


2017-07-10

Um espada americano


Já tenho bastantes anos e lembro-me de haver um tempo, provavelmente desde o fim da 2ª Grande Guerra em 1945 até talvez ao fim da década de 60, em que os enormes carros americanos eram gabados com expressões como "que grande espada!", que se poderia aplicar a este modelo que vi em Tavira em Julho de 2014.


Foi agora confirmar que existia um filme chamado "La belle américaine", uma comédia francesa em que a bela americana era uma viatura que ia passando de mão em mão.

Entretanto a indústria automóvel da Europa recuperou depois da devastação da guerra e os carros americanos foram perdendo o prestígio que tinham em favor dos carros europeus, de dimensões mais compatíveis com as ruas estreitas de algumas cidades antigas, bem desenhados e com consumos de combustível em níveis razoáveis enquanto os consumos típicos destes carros americanos andavam pelos 30 litros aos 100 km.

A classificação passou então de "grande espada" para "grande banheira" o que não deixa dúvidas sobre a perda de prestígio.

Agora que se tratam de carros históricos que se vêem raramente, à excepção de Cuba onde continuam a circular, gostei de rever este que no seu exagero mantém a sobriedade possível.


2017-07-09

As férias de um primeiro-ministro



Julgo já ter dito que de uma forma geral acho os portugueses são excessivamente críticos em relação aos governantes. Na vida dos políticos deve haver uma primeira fase em que são treinados pelos eleitores para ficarem cada vez mais insensíveis às críticas que sobre eles caem. Na segunda fase, quando os políticos já desenvolveram uma carapaça para sobreviverem às críticas, os eleitores queixam-se de eles não as ouvirem.

O actual primeiro-ministro, na sua viagem oficial à Índia foi "apanhado" pelo falecimento de Mário Soares. Talvez por isso escolheu desta vez para férias um lugar próximo, em Palma de Maiorca, sítio de onde poderia regressar a Portugal muito rapidamente. O sítio parece-me geograficamente adequado.

Imensos críticos consideram que alterar as férias programadas há muito criaria um ambiente de crise desproporcionado em relação à possível contribuição de António Costa para resolver as falhas que existiram na tragédia de Pedrógão e no roubo de armamento em Tancos. Talvez por isso afirmam que o PM deveria ter suspendido as férias, provavelmente para lhe poderem fazer perguntas a que ele ainda não está em condições para responder dado que ainda decorrem  os inquéritos ao que se passou.

Eu considero que o PM fez muito bem em ir gozar estas curtas férias de cerca de uma semana e faço votos para que recupere um pouco depois destes incidentes que revelaram mais uma vez algumas fragilidades do país.

Não faço ideia onde o PM está em férias, este ambiente nos arredores de Palma de Maiorca pareceu-me na altura agradável


bem como este restaurante numa pequena ilha em frente duma praia


 Contudo, o panorama por trás dessa mesma praia dava a sensação de ser um sítio talvez sobrepovoado na época alta, tirei as fotos em 16/Jun/2007, altura do ano ainda com pouca gente na praia.



2017-07-06

Olivais Sul


Em 20/Abr/2014 fotografei este arbusto florido cujo nome desconheço ao pé da vedação da Quinta Pedagógica do lado exterior da mesma.


A foto foi tirada com o meu telemóvel e está sobreexposta na parte de cima. Tentei melhorá-la reduzindo o factor gama de 1,0 para 0,75




Depois, na versão original enquadrei apenas uma parte de baixo e reduzi ligeiramente o brilho, obtendo o que parece ser uma foto de outra cena


2017-06-30

Beira-Rio (Tejo) - 4


Estas fotos foram tiradas em 15/Abril/2014 ao fim da tarde no passadiço de madeira que bordeja o rio Tejo no Parque das Nações depois de passar por baixo da ponte Vasco da Gama e a caminho da foz do rio Trancão.

Na primeira vêem-se flores do trevo, de cor branca mais comum e algumas com tons rosados


na segunda só há flores de trevo brancas e 3 florinhas roxas e uma amarela do lado direito a "marcar posição"




e na terceira ficaram uma umbelíferas, iluminadas pelo sol poente




2017-06-29

Torre de Belém no crepúsculo


Tenho umas tantas fotos que já tirei há uns tempos e que têm ficado por publicar neste blogue, suspeito por alguma preguiça, por não me ocorrer grande coisa a dizer sobre elas, por dúvidas em publicar numa altura em que existe tanta publicação, etc.

Receio que as publique agora principalmente por já estar farto de as ver como reserva para serem publicadas.

Neste caso trata-se da Torre de Belém, um magnífico ex-libris de Lisboa, acho que a visitei pela primeira vez numa visita de estudo do 1º ano do Liceu, ainda fiz uns desenhos como TPC (Trabalho Para Casa) mas felizmente para os leitores deste blogue perdi-lhes o rasto.

Os crepúsculos nesta parte da cidade são notáveis, com a silhueta da Torre de Belém a recortar-se sobre o céu com cores espectaculares. Não sei se isto será bem um crepúsculo ou um pôr-do-sol, as cores são as captadas pelo telemóvel, só por acaso serão exactas, mas acredito que poderão ser parecidas com a realidade. As fotos foram todas tiradas em 3/Fev/2013, a 1ª às 18:20, a última às 18:21.







2017-06-28

Gansos em fila indiana


Enquanto espero pelos resultados dos vários rigorosos inquéritos em curso deixo aqui uma imagem de Gansos a nadar em formação, não fazia ideia que fossem tão  disciplinados




2017-06-23

São rosas...






Visitei a Bélgica por uns dias onde passei por esta t-shirt marota que me fez lembrar a história do milagre que se conta com o rei D.Dinis e a rainha Santa Isabel em que levando ela qualquer coisa escondida teria dito ao marido "...são rosas senhor...".


A roupa, além de proteger do calor ou do frio e de outros agentes externos que podem agredir a pele, tem também a função de tapar/destapar partes do corpo e de eventualmente chamar a atenção para o que está tapado.


Googlei (roses t-shirt) e este modelo da H&M não apareceu. Nenhum dos encontrados tinha as rosas assim colocadas.







Posteriormente em Bruxelas passei por uma loja de roupa com raízes culturais magrebinas e constatei que também nesses nossos vizinhos se tenta por vezes chamar a atenção para o que está tapado.





2017-06-22

O mistério português


Chegou-me numa "cadeia" de mail um texto publicado no jornal "La Vanguardia" um texto em espanhol sobre Portugal e os Portugueses com alguma graça e perspicácia, em que apreciei sobretudo esta parte do texto:

«...
¿Cuáles son los retos actuales de la portugalidad? El lector ya se ha dado cuenta de que, en realidad, Portugal es un país inviable. Siempre lo ha sido. 
...»

Googlei esta parte e cheguei a este sítio com o texto que vinha no e-mail, publicado no jornal referido em 23-IX-09 da autoria de Gabriel Magalhães.

Na Aletheia tem esta nota sobre o autor: "Gabriel Magalhães nasceu em Luanda, em 1965. Em 2009, foi galardoado com o Prémio de Revelação da APE, na categoria de Ficção, pelo romance Não Tenhas Medo do Escuro. Autor de Madrugada na tua Alma, editado pela Alêtheia em 2012. É professor de literatura na Universidade da Beira Interior, na Covilhã. Casado e pai de uma filha. Colabora no jornal La Vanguardia, de Barcelona."



2017-06-11

Micro-tosta de queijo, tomate-cereja e orégãos


Em cima duma fatia de pão de forma sem côdea colocar fatias finas (cerca de 2mm) de queijo da ilha para cobrir o pão.

Cortar dois tomates cereja em 9 pequenas rodelas, notar que não é por acaso que chamei a isto uma micro-tosta.

Dispor as 9 rodelas numa matriz de 3x3. Polvilhar com orégãos. Levar ao forno a 170ºC e deixar fundir o queijo. Retirando do forno fica assim



Corta-se para individualizar cada rodelimha de tomate, ficando assim:



Dadas as quantidades quase infinitesimais talvez não engorde.




2017-06-10

Mausoléu de Khomeini


Fui ao Irão em Maio/2010, com receio de mais outra intervenção americana que partisse o país todo, à semelhança do que acontecera no Iraque, incluindo as ruínas do império persa do tempo de Dario e Xerxes e a deslumbrante arquitectura quer laica quer religiosa que tive a oportunidade de mostrar neste blogue em vários posts.

No regresso a Teerão vindos de Isfahan passámos pelo Mausoléu (35°32'56.38"N, 51°22'1.29"E) construído para guardar os restos mortais do ayatola Khomeini, descomunal como se pode ver facilmente no Google Earth usando as coordenadas que indiquei acima e na figura  seguinte.  Não resisto a observar que existe um conjunto apreciável de países em que não está disponível a “street view” do Google. A globalização não é ainda tão global como parece.



Lembrei-me agora disto pelo recente atentado do Daesh que fez 12 mortos e dezenas de feridos no Irão, no parlamento e neste mausoléu, mostrando mais uma vez a incorrecção das análises do actual presidente dos E.U.A., mostrando que o terrorismo de exportação actual é predominantemente sunita e não xiita. E que a exportação do terrorismo se faz sobretudo através da internet e da influência de mentes à distância e não através de migrações, dado que mais uma vez neste caso os terroristas eram cidadãos do país (Irão) vítima de terrorismo.

Não tenho simpatia pelo regime teocrático fundado por Khomeini que actualmente governa o Irão mas é compreensível a animosidade existente contra os E.U.A. dada a intervenção da C.I.A. no golpe de estado que depôs em 1953 o governo do Dr.Mossadegh, governo resultante de eleições democráticas, que nacionalizara os interesses petrolíferos estrangeiros no país.
 
Passei agora por um artigo na Newsweek onde se constata que 7 anos depois ainda prosseguem obras importantes no mausoléu pois ainda se vê o guindaste.

Existem outras cúpulas azul-turquesa neste complexo como a que se vê na figura


Não visitámos o interior do mausoleu, não sei se por ser difícil para turistas se por falta de tempo. Não consegui uma visão de conjunto do edifício por alguma falta de interesse.

A presença destas árvores de pequeno porte dificultaram a tomada de vistas do edifício mas existem pontos de onde se consegue uma boa perspectiva. E gostava que na Praça do Comércio em Lisboa existissem árvores destas para oferecerem alguma protecção do sol abrasador.

No lado esquerdo da 1ª imagem deste post aparece um bocadinho de uma tenda. Na realidade havia muitas, conforme se constata nesta imagem



Apreciei a limpeza e organização do espaço e surpreendeu-me que tanta gente passe uma noite numa tenda para visitar o mausoléu do ayatola Khomeini.

Tentei lembrar-me de mausoléus na Europa e só me consegui lembrar da ruína, de dimensão apreciável, do mausoléu do Octávio César Augusto em Roma.

Mausoléus recentes existem além deste o que é dedicado a Mao Zedong na praça Tiananmen em Pequim, o de Kemal Ataturk em Ankara na Turquia e, se considerarmos o volume de peregrinações que suscitavam, o pavilhão onde repousava o corpo embalsamado de Lenine na Praça Vermelha em Moscovo.

O mausoléu do imperador Meiji em Tóquio também suscita excursões respeitosas como mostrei aqui onde refiro a surpreendente Declaração de humanidade do imperador Hirohito.

Recuando um pouco mais no tempo teremos o Taj Mahal na Índia e o mausoléu de Umayun em Delhi mas estes atraem pela qualidade arquitectónica. E não vou referir monumentos mais antigos.

Fiquei a pensar porque não existirão mais mausoléus na Europa e congratulo-me com tal facto.

Toda a gente morre e embora se devam tratar com respeito os defuntos, a memória deles deve estar nas recordações do que fizeram em vida e não em monumentos depois da morte.


2017-06-06

O futuro do carvão


O futuro do carvão é a diminuição da sua produção, visto que se destina principalmente à geração de electricidade.

Quer os EUA (Estados Unidos da América) mantenham o cumprimento dos objectivos dos acordos de Paris para minimizar as alterações climáticas, quer não o façam, o futuro das minas de carvão nos EUA é o encerramento progressivo.

Chegam notícias por todo o lado da renúncia à construção de novas centrais térmicas a carvão, foi desta vez o caso da Índia que neste artigo do Indian Times referido pelo António Vidigal se refere o cancelamento da construção de centrais térmicas nesse país, que teriam uma potência total de 14 GW, dado o já menor custo de soluções com painéis solares fotovoltaicos.





2017-05-30

Os Descobrimentos Portugueses (4)



Estas minhas divagações sobre esta obra do Jaime Cortesão não são um resumo da obra de 960 páginas mas mais uma colectânea dos assuntos  que me despertaram mais a atenção.

No volume II apercebi-me finalmente (já não era sem tempo...) que os moçárabes eram os cristãos que permaneceram nos territórios conquistados pelos árabes, que invadiram a península ibérica no século VII e que por cá ficaram até ao século XV, ficando sob governação árabe, mantendo a sua religião mas adoptando muitos elementos da cultura do árabe, designadamente muitas palavras e muitas técnicas agrícolas.

Voltei a reparar que os rios vão assoreando e cidades como Silves e Coimbra, que há séculos foram portos marítimos com boas condições, hoje perderam o acesso comercial ao mar.

No volume IV fala-se dos Açores e do Mar dos Sargaços e mais uma vez refere-se a enorme dificuldade que a política de segredo do século XV coloca ao historiador actual, falando a seguir do desastre de Tânger onde ficou preso e morreu o infante D.Fernando.

Na página 403 deste volume fala-se das festas que alcançaram o auge em Lisboa nos últimos 12 dias que precederam a partida por mar em 25/Out/1451 com destino ao porto de Nápoles de D.Leonor, filha do falecido rei D.Duarte e irmã do rei D.Afonso V, para se casar com Frederico III, imperador do Sacro-Império Romano-Germânico e do choro colectivo que nessas festas suscitava a referência ao infante D.Fernando conforme relatado por um enviado e procurador do imperador.

Desde que fui surpreendido na biblioteca Piccolomini da catedral de Siena em Itália por este fresco


representando o encontro nessa cidade entre o imperador Frederico III e a princesa Leonor de Portugal, então noivos, e sobre o qual já falara neste post e ainda neste outro que sempre que vejo uma referência a este evento me interesso mais do que habitualmente para eventos desta natureza.

Desta vez fui à procura de mais imagens do casal, tendo encontrado referências as estas imagens






nas entradas da Wikipédia sobre o imperador Frederico III (1415-1493) e sobre a imperatriz Leonor de Portugal (1434-1467) que faleceu com apenas 33 anos mas deixando descendência.

Atribuem estes quadros ao pintor alemão Hans Burgkmair (1473-1531), o que me parece estranho dado que quando ele nasceu a imperatriz já tinha morrido, não encontrei ainda explicação para esta atribuição.

As imagens separadas parecem inspirar-se naquela em que estão juntos, pessoalmente prefiro aquelas em que estão separados. Não são cópias puras e simples, os escudos do Sacro-império e de Portugal estão em sítios diferentes e com dimensões diferentes nas representações quer da imperatriz quer do imperador.

Adenda: enviei um e-mail para o Kunsthistorisches Museum de Viena, onde se encontram estas obras de Hans Burgkmair no passado domingo (28/Mai) à noite e logo hoje de manhã (terça-feira dia 30/Mai/2017) tinha uma resposta do museu confirmando que se trata de um retrato póstumo, feito a partir dum retrato elaborado quando a imperatriz era viva. Desconhecia este conceito de "retrato póstumo" que me pareceu à primeira vista muito estranho. No entanto vejo utilidade no conceito, quer por o original se ter degradado muito, quer pela possibilidade de usar novas técnicas e/ou um pintor mais talentoso. No site do museu encontram-se reproduções destas imagens com maior definição.

Entretanto consultei a Wikipédia sobre os escudos usados nas diversas bandeiras de Portugal pois achei que o escudo de Portugal tinha castelos a mais. Aprendi que o número actual de 7 castelos é usado desde 1481



O número de castelos evoluiu de 13 para 10 e actualmente 7 mas não encontrei justificação para qualquer dos números escolhidos, fiquei a pensar que documentar as decisões tomadas não é o forte dos portugueses.

Resta-me a conjectura que passámos de querer mostrar que já tínhamos muitos castelos para uma representação mais minimalista. A cruz de Avis durou relativamente pouco e já tinha sido abandonada mesmo antes de 1481 pois não está representada nas imagens de Leonor.



2017-05-24

RHS Chelsea Flower Show


Quando uma vez disse a um inglês que gostava imenso dos jardins ingleses ele recomendou-me que seguisse os "Royal Horticultural Society shows/events", que organizavam visitas a jardins memoráveis.

Tomei agora conhecimento que decorre o Chelsea Flower Show, julgo que um evento anual, desta vez de 23-27/Mai.

Não estou à vontade para descrever a organização deste evento, mas passei por umas páginas da internet e guardei dele estas 5 fotos de "The Anneka Rice Colour Cutting Garden":








2017-05-22

Capas de revistas



As capas das revistas costumam trazer imagens que valem mais do que 1000 palavras, ainda mais quando são acompanhadas de poucas legendas.

À semelhança dos quadros, as fotografias  prestam-se a comentários quase sem fim, diria que contendo mais de 1000 palavras para fazer jus à frase comum..

Esta capa da Time de Dezembro de 2016 mostra que a revista não é fã de Donald Trump, fotografado na sua casa de Nova Iorque, ao nomeá-lo “Presidente dos Estados Divididos da América”.

Quando alguém é nomeado “pessoa do ano” pela Time isso significa que foi uma pessoa com um grande impacto global mas não necessariamente por boas razões.

Googlando (time person of the year 2016 image) podem-se ler  muitos comentários a esta fotografia de Nadav Kander, desde a posição do corpo e o fundo escuro ao forro parcialmente roto do cadeirão misteriosamente seleccionado para figurar na foto.






Não me tinha apercebido da quantidade de capas da Time em que Trump tem aparecido recentemente mas ao procurar na internet mais capas da Time cheguei entre outras a esta de Fevereiro de 2017 ,





Com este filminho do “making-of”:







A última capa da Time de Maio de 2017 mostra a Casa Branca transformando-se num edifício de estilo russo, com a cobertura já decorada com as cúpulas da catedral de São Basílio de Moscovo e com a cor branca já parcialmente mudada para o castanho avermelhado das paredes do Kremlin, traduzindo as suspeitas que se avolumam a cada semana que passa sobre as interferências russas nos E.U.A.



Curiosamente a revista humorística “Mad”, de que eu não ouvia falar há muito tempo, dedicara uma capa muito parecida ao tema da influência da Rússia sobre Trump já em Dezembro de 2016. A revista Mad diz-se honrada por este tributo que a Time agora lhe presta dado que há muitos anos lhe fizera alguns comentários desagradáveis. A seguir mostro a comparação das duas capas apresentada pelo Washington Times:






2017-05-18

O orgulho de ser japonesa


Li esta história deliciosa na BBC, onde contam que no Japão apareceram recentemente posters como este


com um texto dizendo "Estou contente de ser japonesa. Levantem a bandeira do Japão com orgulho no coração" (traduzido da versão inglesa da BBC). O poster levantou alguma polémica, pessoas viram com receio um possível regresso do nacionalismo japonês que deixou más memórias, outros diziam que gostar do seu país e da sua bandeira era natural.

Entretanto descobriu-se que a mulher que aparece no anúncio é chinesa, sendo a fotografia propriedade das Gettyimages como se constata por esta imagem


com ligação ao sítio da gettyimages onde diz que foi produzida em Beijing e tem como uma das palavras chave "chinese ethnicity".

Segundo o Huffington Post do Japão o poster foi encomendado por uma associação de santuários shintoístas ( a religião nacional do Japão).

Lembrei-me desta canção do Peter, Paul and Mary, cujos primeiros versos tocavam com enorme frequência no programa "Em Órbita" nos anos 60



cuja letra copiei deste Youtube

«
Because all men are brothers wherever men may be
One Union shall unite us forever proud and free
No tyrant shall defeat us, no nation strike us down
All men who toil shall greet us the whole wide world around.

My brothers are all others forever hand in hand
Where chimes the bell of freedom there is my native land
My brother's fears are my fears yellow white or brown
My brother's tears are my tears the whole wide world around.

Let every voice be thunder, let every heart beat strong
Until all tyrants perish our work shall not be done
Let not our memories fail us the lost year shall be found
Let slavery's chains be broken the whole wide world around.

Songwriters TOM GLAZER
Published by Lyrics © MEMORY LANE MUSIC GROUP
»

Apercebi-me agora que se trata de uma composição de Johann Sebastian Bach neste Youtube



Quem sabe ler partituras poderá obter a desta música aqui.

Adenda(s): entretanto um amigo indicou-me o Youtube que segue, com o coral "O Haupt voll Blut und Wunden" na Paixão segundo S.Mateus de J.S.Bach:




coral que afinal antecede o Bach como diz neste sítio indicado num comentário da Helena.

2017-05-16

Os Descobrimentos Portugueses (3)


Na caracterização das civilizações Jaime Cortesão criticava o sistema de castas na Índia e elogiava vários aspectos da civilização chinesa. Os motivos para fazer todas estas viagens não são naturalmente esquecidos, a conquista, a propagação da fé cristã e a realização de bons negócios tiveram todos a sua parte, não necessariamente por esta ordem.

Já não me lembro se também falou na posição periférica da peninsula ibérica, bem como da Inglaterra e da Escandinávia, quem está longe do centro tenta descobrir o que há lá longe.

Na descrição das dificuldades encontradas pelos portugueses o autor dá o devido (talvez até um pouco demais...) relevo às dificuldades da navegação no Oceano Atlântico designadamente à existência de correntes e de  ventos, cujas direcções estatisticamente dominantes variam com o local e com as estações do ano, para não falar nas tempestades. Por exemplo as zonas sem vento do Golfo da Guiné obrigavam os navios a afastar-se muito da costa para chegar ao sul do continente africano. Por outro lado, era difícil conhecer a localização do navio no alto-mar pois enquanto a latitude era relativamente fácil de determinar com o céu descoberto, o cálculo da longitude revelou-se muito mais difícil conforme relatado na entrada “longitude” da Wikipédia ou com mais pormenor na entrada “History of longitude”, sintomaticamente sem versão em língua portuguesa pois a sua versão está incluída na primeira entrada referida.

O almirante Gago Coutinho refez algumas viagens no Atlântico em embarcações à vela para verificar a plausibilidade de conjecturas sobre o que se tinha passado em algumas das viagens dos portugueses no século XV.

No mar alto só os astros nos podem guiar. Neste mar do Algarve a esteira luminosa indica aproximadamente a direcção Sul.




Os Descobrimentos Portugueses (2)


Acabei de ler a republicação pelo jornal Expresso desta obra de Jaime Cortesão que já referi aqui.

Tenho uma ligeira obsessão pelas datas dos documentos, quanto mais não seja como critério de último recurso para os classificar e noto que nas edições portuguesas existe geralmente pouca consideração por esta informação. Por exemplo nesta edição refere-se apenas que foi impressa em Março/2016, sendo omissa quanto à data da primeira publicação. 

Vi na pág.797 do Volume VII uma referência às comemorações do V Centenário da morte do Infante D.Henrique que ocorreram em 1959 e dado que o autor faleceu em 1960 o original foi concluído entre estes dois eventos.

Trata-se portanto de um texto escrito há 57 anos, período de tempo que o torna mais adequado para os historiadores do que para o público em geral. Em tempos li que a História tinha que ser revista periodicamente, tendo-me nessa altura começado a aperceber que a História é a perspectiva que as gerações do presente têm do passado e que a visão que se tem se vai alterando, não só pelos factos que se ignoravam e que foram descobertos como pelo maior ou menor interesse que cada face da realidade vai tendo para quem vive no presente.

Em casos mais extremos, por exemplo como aconteceu na Rússia em que os governantes apagaram das fotografias as imagens de dirigentes caídos em desgraça, na Alemanha nazi em que se queimaram livros ou noutros países, como na China durante a Revolução Cultural, de onde se dizia que “na China o passado é imprevisível” existe também a tentativa de alteração dos registos do passado pelos poderes do presente. George Orwell escreveu magistralmente sobre isso no romance “1984”uma tentativa parcialmente bem sucedida de vacina contra regimes totalitários.

Mas mesmo sem estes casos extremos convivo actualmente muito bem com o pensamento de que “o nosso conhecimento futuro do passado é imprevisível” que por vezes se abrevia para “o passado é imprevisível”.

O nosso conhecimento dos Descobrimentos Portugueses é perturbado pela aplicação do segredo que as autoridades usavam para impedir o acesso dos concorrentes potenciais às terras onde existiam as mercadorias valiosas, para não falar da contra-informação também usada pelos portugueses para induzir em erro a concorrência.

Abrangido pelo segredo estava naturalmente o conhecimento geográfico que se traduzia em mapas que por vezes eram roubados por entidades externas de que um dos melhores exemplos é este mapa designado “Planisfério de Cantino




“obtido clandestinamente em Portugal em 1502” e enviado para Itália  onde se encontra actualmente.

Outro suporte dos descobrimentos foi a caravela,


uma embarcação desenvolvida em Portugal a partir dos barcos mouros de pesca, bem adaptada para as viagens de exploração do oceano pela sua agilidade na progressão contra o vento e cuja venda a estrangeiros esteve proibida pelo rei.

Depois de falar sobre os (des)conhecimentos geográficos e civilizações do final da Idade Média, designadamente as Ameríndias, as dos Berberes, da África Negra, do Islão e do seu domínio do comércio de longo curso com a Índia e a China a obra aborda o papel importante que teve a Ordem dos Franciscanos na reabertura do Cristianismo ao mundo, trocando o ideal do asceta vivendo enclausurado num mosteiro preparando-se para a vida eterna pelo ideal de viver fora do claustro levando o exemplo de Cristo ao povo e aos infiéis, traduzindo no nível religioso a mudança de uma economia fechada para uma economia mercantil. Nas caravelas costumava ir sempre um franciscano.

2017-05-11

Divórcio instantâneo de muçulmanos na Índia



O homem diz "talaq, talaq, talaq" e o divórcio está consumado diz neste artigo da BBC News que esta tradição entrou na lei indiana em 1937.

Aguardo com curiosidade o que dirá o tribunal depois de ouvir o comité com um representante Hindu, um Sikh, um Cristão, um Zoroastriano e um Muçulmano. Que será feito dos Jain?

Pela minha parte considero que a lei deve dar suporte a estas associações entre seres humanos fazendo alguma regulação na tutela dos filhos, na partilha e na transmissão de propriedade.

E como já disse aqui partilho a antipatia do Amartya Sen pelo multiculturalismo. 

Se calhar vão dizer que se a mulher disser "qalat, qalat, qalat" anula o efeito do "talaq, talaq, talaq" e em português até faria foneticamente sentido.

2017-05-09

Trajectos das Aves - Iskiografia


Vi no blog da Helena Araújo umas curvas sobre azul que me intrigaram, como esta




ou esta


 São "Iskiografias" das trajectórias de aves voando que revelam curvas muito belas, que podem ser vistas neste sítio do Lothar Schiffler, onde tem este "making of" que me reenviou para este filme na Vimeo:






2017-05-04

Os Descobrimentos Portugueses e os Painéis de Nuno Gonçalves


Ando há imenso tempo a ler a obra do Jaime Cortesão “Os Descobrimentos Portugueses” na versão publicada pelo jornal Expresso já no ano de 2016. Neste caso a razão do grande tempo de leitura é instrumental pois dado o pequeno tamanho de cada um dos volumes tenho reservado a respectiva leitura para os tempos de espera no dentista e em alguns outros locais onde é preciso esperar, tendo-se dado o caso que os tempos de espera têm sido felizmente curtos.

Estou agora quase a terminar a leitura e farei depois do fim mais algumas considerações sobre a obra. Uma das características que me desagradou foi o desfasamento entre o grau de detalhe em que eu estava interessado e o que era oferecido no livro, “obrigando-me” a saltar algum texto, o que não gosto de fazer com receio de perder algo que seja importante.

Um dos temas que me pareceu ser abordado de forma excessivamente longa foram os Painéis de S.Vicente a que dedicou 54 páginas, da pág. 623 à 677! Bem sei que estes painéis da autoria de Nuno Gonçalves, reencontrados na igreja de S.Vicente de Fora nos finais do século XIX, foram objecto de muito longas discussões quer sobre a sua autoria quer sobre a sua data.

Neste artigo da Wikipédia dá notícia que não existem actualmente dúvidas nem sobre o autor nem sobre a data que se pensava ter sido entre 1470 e 1480 mas que agora se considera ter sido 1445, baseado numa inscrição ao pé da assinatura e numa análise de dendrocronologia.

Existem várias imagens de boa qualidade (como habitualmente na Wikipédia) disponíveis no artigo que refiro acima, de onde tirei esta



Tinha alguma antipatia por quadros antigos, talvez como reacção à preferência preconceituosa das pessoas minhas próximas pelas coisas antigas, como se o facto de algo ter sido feito há mais tempo fosse sinal de qualidade. Talvez também aquelas vestimentas tão pouco práticas  e o excesso de temas religiosos me afastasse destas pinturas. Agora já lhes acho mais graça.

Na dificuldade de seleccionar uma parte do texto das 54 páginas dedicadas por Jaime Cortesão a esta obra fui ver o que dizia dela a “Larousse Encyclopedia of Art and Mankind”, da HAMLYN, coordenada por René Huyghe, no volume “Renaissance & Baroque Art”, uma obra que, embora volumosa abrange arte de todos os países da Europa durante os séculos 15 a 18, o que obriga a economia de palavras sobre cada obra em destaque.

Neste caso, sobre os painéis de São Vicente, Adeline Hulftegger diz o seguinte (arrisquei traduzir):
«
... no terceiro quartel do século 15 o génio de um homem colocou a pintura portuguesa no topo. Embora não se conheça a exacta origem do seu estilo, sabe-se que Nuno Gonçalves foi influenciado directamente pelo realismo flamengo, que chegara a Portugal com a viagem de Van Eyck a Lisboa em 1428. A mestria de Nuno na forma escultórica e na composição monumental, combinada com um sensibilidade decorativa rara enraizada na tradição da tapeçaria, assim como a beleza das suas cores quentes realçadas por tons frios contrastantes, teriam bastado para lhe atribuir uma posição importante na pintura, mesmo sem considerar o talento raro de retratista que penetra além da aparência exterior. As figuras fortemente caracterizadas no Políptico de S.Vicente(Lisboa), que vibram com uma vida interior afectada por alguma tristeza, revelam a nova importância que era atribuída ao indivíduo. Nisso, assim como no tratamento amplo e naliberdade da composição – absolutamente sem igual até aos tempos modernos – o trabalho de Nuno Gonçalves chega muito para além dos confins da arte medieval. Quando no tempo do rei D.Manuel, sob a égide dos pintores de Antuérpia, a pintura portuguesa ficou mais brilhante e as suas cores mais refinadas, ainda estava imbuída desta mesma melancolia subtil e às vezes deste mesmo calor humano.
»

Mas na sua ânsia de contribuir para a datação dos painéis, Jaime Cortesão recorre mesmo à moda dos tempos, hábitos efémeros que nos podem ajudar a datar algumas imagens. Neste caso cita “Le costume en Bourgogne de Philippe le Hardi à la mort de Charles le Téméraire (1364-1477)” por  Michèle Beaulieu e Jeanne Baylé.

Chegado aqui interroguei-me como teria chegado a Portugal a moda da Borgonha, numa altura em que ainda não existiam estas rápidas viagens de avião. Além de D.Afonso Henriques ser da linhagem duma anterior dinastia da Borgonha, o próprio Van Eyck trabalhava para o Duque da Borgonha, tendo vindo a Portugal em 1928 precisamente para retratar a princesa Isabel numa perspectiva de acertar um casamento com o Duque da Borgonha que se veio a concretizar. E Jaime Cortesão chamou a atenção para o decote relativamente generoso (para a época) da dama do chamado Painel do infante que mostro a seguir



decote que ele citou como “fenêtre du diable”, designação que achei engraçada, se bem que sexista.

Em tempos ouvi outra classificação de decotes, designados pelo termo “decote até ao filho” em que “filho” era o local do corpo onde tocava a mão da crente quando pronunciava essa palavra enquanto se benzia dizendo “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. Seria por exemplo este decote da Marylin Monroe



Por coincidência temporal, a cidade de Lisboa foi actualmente invadida por cartazes mostrando a Irina Shayk anunciando um novo soutien da marca Intimissimi, adequado para decotes ainda mais ousados como se vê na imagem


Trata-se ainda de outro tipo de Descobrimento.


2017-04-30

Sarampo e vacinas


Este post é a continuação do anterior, onde falei de como este surto de Sarampo em Portugal me fez tomar conhecimento de que essa doença tinha sido erradicada do país.

A minha posição sobre vacinas era simples. Se existe uma vacina contra uma doença deve-se tomá-la para evitar ficar doente mesmo sabendo que numa percentagem muito pequena de casos as vacinas podem causar alguns problemas. E naturalmente quis também que os meus filhos tomassem todas as vacinas na altura consideradas como adequadas.

A minha decisão de tomar uma vacina tinha um fundamento individual, ao tomar uma vacina ganhava imunidade a uma ou mais doenças e não entrava em consideração com o que agora ouvi chamar “imunidade de grupo“.

Fiquei algo embaraçado por não  me ter apercebido há muito mais tempo que a consequência normal da vacinação sistemática da população de um país contra uma dada doença é a diminuição da ocorrência dessa doença e a sua eventual erradicação dessa população ao fim de alguns anos.

Diria que este tipo de evolução, em que existe uma melhoria lenta que se desenrola num periodo que por vezes se estende por décadas, não suscita o mesmo interesse num jornal diário ou semanário que os desastres ou epidemias súbitas. Para este tipo de informação é melhor consultar documentos específicos como por exemplo:

1) ACTUALIZAÇÃO DO PROGRAMA NACIONAL DE VACINAÇÃO: PNV 2017

de onde retirei a tabela resumo das doenças contempladas nos sucessivos Programas Nacionais de Vacinação


1
Erradicada
 

5
Eliminadas
 

7
Controladas 
 

?
Expectativas
 
Varíola
Poliomielite, difteria, sarampo, rubéola e tétano neonatal

Tétano, N. meningitidis C, H. influenzae b, hepatite B, parotidite epidémica, tosse convulsa, tuberculose
 
Controlo do cancro do colo do útero (HPV) e S. pneumoniae

e os gráficos seguintes:





2) PORDATA



onde se constata que a Tuberculose é uma doença mais difícil de erradicar.

Talvez dada a minha lamentável ignorância (até agora) da imunidade de grupo vejo mais a resistência às vacinas como um receio compreensível, se bem que pouco razoável, dos possíveis efeitos nefastos de tomar uma vacina. Embora objectivamente os não vacinados estejam a beneficiar dos pequenos riscos da maioria da população que se vacina e da correspondente imunidade de grupo, por outro lado estão a correr o risco de serem vítimas da doença que pode sempre ser importada de países onde a doença não tenha sido erradicada.

Dados os bons resultados do Plano Nacional de Vacinas e a imunidade de grupo satisfatória que se tem conseguido em Portugal sem obrigatoriedade inclino-me para seguir a opinião que, pelo menos enquanto a taxa de cobertura for adequada, não será necessário tornar a vacinação obrigatória.