2016-01-14

Teorias de Tudo, por John D. Barrow


Ofereceram-me este livro no Natal de 1999, o tempo voa e conhecer os mistérios do Universo não esteve nas minhas prioridades. Constatei que o original em inglês foi escrito em 1991 e a sua tradução para português em 1996. Como a procura da explicação para o Universo me parecia pueril considerei que o tema podia esperar. Como nas duas ou três décadas passadas não ouvi falar de grandes progressos nesta área pensei que o livro não estaria completamente desactualizado e comecei a lê-lo tendo concluído a leitura com sucesso, nestes tempos difíceis em que a internet me dispersa tanto.

Achei o livro muito interessante revelando o autor uma grande abertura de espírito e um enorme leque de interesses, adequado para tratar de uma matéria tão vasta.

Logo na Introdução o autor pergunta:
«
Poderá este esforço (encontrar as “Teorias de Tudo”) ser bem sucedido? Poderá a nossa compreensão da lógica subjacente à realidade física ser total? Será de prever o dia em que a física fundamental estará completa deixando só por revelar os detalhes complexos latentes nas suas leis?
»
e pouco a seguir afirma
«
Tentaremos demonstrar que, mesmo que as Teorias de Tudo, tal como correntemente concebidas, venham a provar ser necessárias para a nossa compreensão do Universo que nos rodeia, elas estão longe de ser suficientes.
»
o que para mim constituiu um excelente começo.

O autor começa por falar dos Contos Mitológicos das diversas civilizações como as primeiras Teorias de Tudo, onde se explica como tudo apareceu. A fraqueza das Teorias de Tudo mitológicas é que como a explicação é fraca é preciso um novo elemento de cada vez que se descobre um novo facto. Por exemplo há um deus para a chuva, outro para o relâmpago, etc. Exemplo disso é o Olimpo grego, onde além dos deuses que se encarregam dos fenómenos “naturais” existem os “especialistas” dos sentimentos humanos.

Isto fez-me lembrar uma visita que fiz ao templo Thillai Nataraja em Chidambaram, no estado do Tamil Nadu,  onde o nosso guia se multiplicava em explicações intermináveis sobre os mitos indianos (porque tivera uma má avaliação duns turistas dum grupo anterior) e eu me distraía a olhar para aquela torre (gopura) ao fundo cheia de estátuas coloridas



receando que me contassem a vida de todas aquelas figuras




olhando para esta pequena estátua do deus Shiva dançando sempre



e para este homem que tinha tomado banho no lago do templo, sagrado mas com a água demasiado esverdeada.



E volto a citar o livro:
«...
Nestas explicações (mitológicas) não existe um caminho plausível para a simplificação.
...
Enquanto os antigos se contentavam em criar muitas divindades menores, cada uma com capacidade de explicar as origens de um aspecto particular, mas podendo muitas vezes entrar em conflito, o legado das grandes religiões monoteístas é a esperança numa única explicação para o Universo.
...
Mais uma vez, constatamos que esta motivação é essencialmente religiosa. Não existe nenhuma razão lógica para que o Universo não contenha irracionalidades ou elementos arbitrários que não se relacionem com o resto.

»

Passando depois ao tema das Leis da Natureza o autor sublinha mais uma vez a contribuição da crença na existência de um Deus legislador único das religiões monoteístas do Ocidente, na procura de teorias unificadas da Natureza, em contraponto ao politeísmo e holismo das religiões orientais, que dificulta a análise e consequente compreensão do mundo que nos rodeia, pois não se pode separar uma parte dado que o todo tem que ser sempre considerado.

E um pouco mais à frente
«
As nossas tradições monoteístas reforçam o pressuposto de que o Universo é , na sua raiz, uma unidade, que não é governada por legislações diferentes nos diversos locais, nem é  o resultado de qualquer choque de titãs lutando para impor as suas vontades arbitrárias sobre a natureza das coisas, nem resulta do compromisso de alguma assembleia cósmica.
»
diferenciando assim a Ciência da Política e doutras lutas pelo poder como o Futebol.

Claro que nem tudo são rosas nas relações entre as religiões monoteístas e a Ciência, designadamente quando é atribuído a Deus um papel mais interventor no dia-a-dia, tal como provocar doenças ou terramotos como castigo mas, enquanto encarado como um legislador racional e universal, o conceito de Deus único favorece a procura das suas leis.

À medida que se foram descobrindo leis da Física como, por exemplo, a conservação da energia, foi diminuindo a necessidade de considerar a intervenção divina numa série de assuntos.

O livro fala a seguir das Condições Iniciais e da sua importância no estado do Universo.
Discute a eventualidade de as leis da Natureza a aplicar poderem depender das condições iniciais mas acaba por considerar preferível uma situação em que a lei seja a mesma independentemente das condições iniciais. Não consigo deixar de pensar que a estrutura da Ciência reflecte a sociedade onde nasce. Agora o sentimento de Justiça predominante é que a lei seja aplicada a toda a gente independentemente da sua condição, mas este conceito é contrabalançado com o pensamento que se deve tratar de modo diferente o que é diferente.

Finalmente o autor afirma que
«
A um nível mais profundo pode simplesmente não existir qualquer divisão radical entre aqueles aspectos da realidade que usualmente designamos por “leis” e aqueles que passamos a conhecer como “condições iniciais”.
»

Refere depois o determinismo e o livre-arbítrio, a ubiquidade de sistemas caóticos, e a dificuldade em conhecer o futuro, e portanto o passado, de uma forma exacta, só sendo possível um conhecimento estatístico. Aborda ainda a existência provável de partes importantes do Universo que ainda não podemos observar colocando-se a questão de saber se nessas partes vigoram as mesmas leis que na parte que é visível para nós.

Prossegue depois sobre o tema do Tempo, citando

- este graffiti de um anónimo no Texas:
«O tempo é o modo como Deus evita que as coisas aconteçam todas ao mesmo tempo»;

- Bernard Shaw:
«Os ingleses não são um povo muito espiritual. Então, inventaram o críquete que lhes dá alguma noção de eternidade»;

- e “A Cidade de Deus” de Santo Agostinho:
«O mundo foi então seguramente feito, não no tempo, mas simultaneamente com o tempo. Porque aquilo que é feito no tempo é feito tanto antes como depois de algum tempo – depois disso, que é passado, eantes disso, que é futuro. Mas então nada podia ser passado, pois não existia nenhuma criatura cujos movimentos pudessem ser medidos para determinar a sua duração. Mas simultaneamente com o tempo o mundo foi criado.».

considerando que esta visão da simultaneidade da criação do Universo e do tempo é a opinião dominante dos cientistas de hoje, que corresponde à opinião de Santo Agostinho, manifestada no século V.

E como já gastei muito tempo, quer a mim quer ao leitor deste blogue, sobre este interessante livro vou hoje ficar por aqui.

Talvez ainda faça outro post sobre este livro.




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