2017-02-13

Algumas referências à China


Na minha busca, aparentemente sem fim, para perceber a razão de os chineses terem continuado a usar os seus ideogramas tão complicados comprei o  livro "China, Empire of Living Symbols", escrito por uma sueca chamada Cecilia Lindqvist, sinóloga que se dedicou ao estudo da evolução do grafismo e do sentido dos ideogramas chineses.


Gostei do livro como testemunho da cultura chinesa por exemplo, embora já tivesse visto algumas pedras com formas elaboradas nalguns templos chineses, não me tinha apercebido do grau de atenção que os chineses lhes podem dar, ao ponto de modificarem algumas expondo-as depois aos elementos para parecerem objecto de erosão natural (pág.65).


Na Wikipédia tem uma entrada sobre "Chinese Scholar´s Rocks" e fui buscar a este sítio o exemplo que mostro a seguir


Já me tinha apercebido que os chineses se dedicam à aquacultura de peixes de água doce mas não era para mim claro que os excrementos dos peixes fertilizassem as ervas de que se alimentam (pág.74).

Vi agora na Wikipédia a referência a "Aquaponia", combinação de aquacultura com hidroponia que além de passado poderá ter um interessante futuro como se vê numa instalação artesanal em Portugal nesta reportagem da RTP



e noutros sítios mais virados para o mercado googlando Aquaponics ou (urban aquaponics).

Também gostei deste vaso de bronze encontrado em Anyang, do período Shang (1766-1122A.C.) na página 84, onde se vê de frente uma cabeça de veado 


ou duas cabeças de veado de perfil



em que destaquei a cabeça da direita

Nas páginas noventa e tal aparecem vários cortes em papel em que os artesãos chineses são grandes peritos. Abaixo mostro uns recortes em papel que comprei na China, alusivos às 4 estações, que julgo estarem na ordem Primavera, Verão, Outono e Inverno






Para ver mais exemplos desta arte pode-se googlar (chinese paper cuts) ou ver este artigo da Wikipedia.

A partir das páginas 150 existem referências a jangadas de bambu, planta particularmente adequada também para esse efeito dado que os caules são ocos, e algumas referências aos juncos. Na página 153 existem referências apressadas aos descobrimentos Portugueses, minimizando o feito e julgando os comportamentos dos Portugueses de então com os padrões prevalecentes nos finais do século XX.

Existe um capítulo dedicado ao Cânhamo e à Seda (hemp and silk), fui ver o que seria o cânhamo, lembrava-me de me falaram nele no liceu, ou nas aulas de Geografia ou de História. Trata-se de uma planta com fibras longas e resistentes, usada pelos chineses quando inventaram o papel, e também para fazer tecidos, cordas e redes. Na Europa, segundo a enciclopédia luso-brasileira, o cânhamo foi destronado pela juta (Corchorus olitorius), por sua vez substituída por outras fibras vegetais e depois por fibras sintéticas derivadas do petróleo.

Neste sítio www.hemp.com tem uma história do cânhamo onde se refere que nos E.U.A. a legislação que distinguiu o cânhamo industrial da marijuana de 1937 até finais dos anos 60 deixou de o fazer nesta última data enquanto na Europa se considera essa diferença. A proibição de cultivo nalguns países da União Europeia foi abolida em 1998. Existem plantas do mesmo género Cannabis mas com conteúdos muito diferentes do psicoactivo Tetra-hidrocanabinol (THC).

Na página 214 do livro refere-se a batalha de Talas, que opôs exército dos Abássidas ao da dinastia Tang no ano de 751. Os muçulmanos ganharam, parando a expansão chinesa para Ocidente. É possível que a transmissão do conhecimento do fabrico de papel se tenha feito por essa altura, embora seja pouco provável que tenha acontecido durante a batalha. E ao ler sobre mais uma batalha importante de que nunca ouvira falar, uma pessoa volta a pensar que a história que aprendeu é eurocêntrica, se bem que fosse muito difícil que o não fosse.

Vi também decoração de janelas na página 295 e googlei (chinese lattice design) tendo chegado a este painel que encontrei aqui


Este tipo de painéis, além de serem decorativos, forneciam suporte para papel que deixava passar alguma luz dando ao mesmo tempo algum isolamento térmico.

Sobre os ideogramas a autora mostra as formas primitivas de diversos ideogramas, apresentando razões umas vezes verosímeis outras vezes com um apreciável grau de arbitrariedade.

Embora seja fácil estabelecer relações entre o ideograma que representa montanhas e este símbolo "",  à medida que nos aproximamos de conceitos mais abstractos a arbitrariedade da escolha do símbolo aumenta.

Os ideogramas serviram a função de agregar comunidades que falavam línguas muito diferentes mas criam dificuldades enormes na construção de dicionários em papel, pela dificuldade inultrapassável da ausência de uma ordem alfabética.

A definição do pin-yin, feita por um grupo coordenado por Zhou Youguang, permitiu a romanização do mandarim, a língua mais falada na RPC (República Popular da China). Esta romanização facilitou a alfabetização duma muito maior percentagem da população chinesa. Facilita também a introdução dos caracteres chineses nos computadores. A existência de computadores poderá prolongar a vida dos ideogramas cujo significado é agora mais fácil de procurar pois existem programas de reconhecimento de caracteres como o "Linedict", "Pleco" ou mesmo o Google Tradutor que além duma App para iOS e Android já inclui um identificador de caracteres também no PC,  que reconheceu facilmente os poucos caracteres chineses que eu consigo escrever.

Quando estive pela primeira vez em Macau pensei que seria prudente ser capaz de identificar o ideograma de "saída" (出口 ou só 出) e feminino (女) e masculino (男) para identificação da casa de banho adequada.

Curiosamente no capítulo deste livro dedicado a "Mankind" aparece no subcapítulo Mankind.person o ideograma 人 que significa "pessoa" ou "ser humano" e no subcapítulo Mankind.woman aparece o ideograma 女 e o ideograma para mãe 母, não sendo mostrado no capítulo do Mankind nem o ideograma de masculino nem o de pai (父). No subcapítulo Mankind.person aparece o ideograma 夫 que significa marido. Na categoria dos seres humanos o género masculino aparece assim como marido do ser do género feminino.

O carácter 男 (masculino) que deriva da agregação de 田 (campo agrícola) com 力 (força) aparece apenas no capítulo Farming.

O texto parece assim considerar que o homem tem duas funções, de esposo e de lavrador do campo e só na primeira, através do matrimónio, acede à categoria de ser humano. Fiquei a pensar que poderia existir aqui alguma misandria (90400 resultados na busca no Google, enquanto que misoginia tem 1.090.000).

O livro é interessante mas não me iluminou sobre a razão da persistência dos ideogramas ao longo de tantos séculos.

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